Ver pontos brilhantes, linhas, áreas embaçadas ou alterações temporárias no campo de visão antes de uma dor de cabeça pode fazer parte de uma enxaqueca com aura visual. Para algumas pessoas, esses fenômenos são tão marcantes que o sintoma visual chama mais atenção do que a própria cefaleia.
A aura é uma manifestação neurológica transitória e totalmente reversível que pode ocorrer antes ou durante uma crise de enxaqueca. Entre os diferentes tipos, a manifestação visual é a mais frequente. A Classificação Internacional das Cefaleias informa que sintomas visuais aparecem em mais de 90% das pessoas com enxaqueca com aura em pelo menos algumas crises.
Entretanto, nem toda alteração súbita da visão deve ser atribuída à enxaqueca. Entender como o sintoma começa, quanto tempo dura, se afeta um ou ambos os campos visuais e se aquele padrão já aconteceu antes é especialmente importante.
Como pode começar uma aura visual?
A aura nem sempre aparece como uma perda de visão.
Muitas pessoas apresentam inicialmente fenômenos chamados positivos, ou seja, percebem algo que não estava presente anteriormente no campo visual. Podem surgir pontos luminosos, flashes, linhas brilhantes ou formas que parecem crescer e se deslocar gradualmente.
A ICHD-3 descreve como exemplo clássico uma figura semelhante a um zigue-zague que pode começar próxima ao centro do campo visual e se expandir progressivamente para um dos lados. Em outros casos, aparece uma área de redução da visão que também pode aumentar aos poucos.
Essa progressão gradual é uma das características que ajudam a reconhecer o padrão da aura.
Quanto tempo costuma durar?
Na classificação da enxaqueca com aura, cada sintoma típico costuma durar entre 5 e 60 minutos. Outro elemento característico é a evolução gradual durante pelo menos cinco minutos ou a ocorrência sucessiva de mais de um sintoma.
Isso significa que uma alteração que se desenvolve progressivamente ao longo de alguns minutos apresenta um comportamento diferente de uma perda visual completa e instantânea.
A duração, porém, não deve ser utilizada isoladamente para alguém tentar estabelecer seu próprio diagnóstico.
Especialmente quando a alteração visual acontece pela primeira vez, é muito diferente daquilo que a pessoa costuma sentir ou não apresenta o comportamento habitual, uma avaliação pode ser necessária para excluir outras causas.
A dor de cabeça sempre aparece depois da aura?
Não.
A aura frequentemente antecede a cefaleia e pode ser seguida pela dor dentro de até aproximadamente uma hora, mas algumas pessoas apresentam manifestações de aura sem uma cefaleia típica depois.
A ICHD-3 reconhece inclusive a aura típica sem cefaleia, situação em que os sintomas neurológicos ocorrem sem que uma dor de cabeça apareça depois.
Quando não existe dor para ajudar a reconhecer o padrão de enxaqueca, diferenciar a aura de outras condições pode se tornar mais difícil.
A própria classificação chama atenção para a necessidade de investigação quando a aura aparece pela primeira vez após os 40 anos, quando os sintomas são exclusivamente negativos — como perda de parte da visão — ou quando têm duração muito curta ou prolongada.
Aura visual acontece em um olho ou nos dois?
Essa pergunta é importante e, na prática, nem sempre é fácil de responder durante uma crise.
A aura visual típica se relaciona ao processamento visual no sistema nervoso e pode afetar parte do campo visual percebido pelos dois olhos, embora a pessoa inicialmente possa ter a impressão de que o problema está apenas de um lado.
Já uma perda visual realmente limitada a um único olho exige outra avaliação.
A enxaqueca retiniana existe, mas é descrita pela ICHD-3 como uma condição extremamente rara. Outras causas de perda visual monocular transitória precisam ser excluídas antes que esse diagnóstico seja estabelecido.
Por isso, diante de perda súbita de visão de apenas um olho, não é recomendável presumir que se trata simplesmente de "aura".
Como saber se a alteração visual faz parte de um padrão recorrente?
Pessoas que apresentam aura repetidamente muitas vezes passam a reconhecer uma sequência semelhante.
A alteração pode começar pequena, crescer ou se deslocar gradualmente, desaparecer completamente e ser seguida por uma cefaleia parecida com crises anteriores.
Essa previsibilidade ajuda na caracterização clínica.
Por outro lado, uma manifestação diferente do habitual exige mais atenção. Se alguém sempre percebe pequenas luzes progressivas durante 20 minutos e, em determinado dia, apresenta perda súbita completa de visão, o episódio não deve ser automaticamente interpretado como "a mesma aura de sempre".
A comparação com o próprio histórico é uma das informações mais úteis durante a avaliação.
A aura pode envolver sintomas além da visão?
Pode.
Embora a manifestação visual seja a mais comum, a aura também pode apresentar sintomas sensitivos ou alterações da fala e linguagem.
Na aura típica, esses sintomas são reversíveis e tendem a se desenvolver de maneira gradual. Uma pessoa pode, por exemplo, perceber primeiro a alteração visual e posteriormente experimentar formigamento ou alguma dificuldade transitória de linguagem.
Esse comportamento é diferente de atribuir automaticamente qualquer déficit neurológico à enxaqueca.
Fraqueza motora, sintomas novos ou alterações abruptas precisam ser avaliados de acordo com o contexto.
Alterações visuais súbitas podem ter outras causas
Este é um dos pontos mais importantes do tema.
Nem toda pessoa que apresenta luzes, perda visual ou dificuldade temporária para enxergar possui enxaqueca com aura.
Condições oftalmológicas e eventos vasculares também podem produzir manifestações visuais.
O que ajuda o neurologista é justamente reconstruir a sequência: o sintoma apareceu de forma progressiva ou instantânea? Houve fenômenos luminosos ou apenas perda da visão? Quanto tempo durou? A visão voltou completamente? Existiram alterações de fala, sensibilidade ou força?
Quando o quadro não corresponde ao padrão habitual, a investigação não deve ser adiada apenas porque a pessoa possui histórico de enxaqueca.
Quando procurar avaliação de urgência?
Uma aura já conhecida e recorrente não tem a mesma interpretação de um déficit neurológico súbito que nunca aconteceu antes.
Procure atendimento imediato diante de perda súbita de visão, fraqueza em um lado do corpo, alteração súbita da fala, confusão ou outra manifestação neurológica abrupta. O Ministério da Saúde inclui alterações súbitas da visão, fala, equilíbrio e força ou sensibilidade de um lado do corpo entre os sinais de alerta para AVC.
Também é prudente avaliar rapidamente um primeiro episódio de alteração visual muito diferente do habitual, especialmente quando não há recuperação completa.
O objetivo não é assustar pessoas que convivem com aura, mas evitar que um sintoma novo seja atribuído a uma condição conhecida sem avaliação adequada.
Perguntas frequentes sobre enxaqueca com aura visual
1. Quais são os sintomas mais comuns da aura visual?
Podem ocorrer pontos luminosos, linhas ou formas brilhantes, áreas de visão reduzida e alterações que se expandem gradualmente pelo campo visual. A apresentação varia entre as pessoas.
2. A aura pode acontecer sem dor de cabeça?
Sim. Algumas pessoas apresentam aura típica sem cefaleia posterior.
3. Quanto tempo uma aura visual costuma durar?
Os sintomas típicos geralmente duram de 5 a 60 minutos, embora manifestações fora desse padrão precisem ser interpretadas conforme o contexto.
4. Perder a visão de um olho pode ser apenas enxaqueca?
Existe enxaqueca retiniana, mas ela é rara. Outras causas de perda visual transitória de um olho precisam ser descartadas, principalmente em episódios novos.
5. Primeiro episódio de aura precisa ser avaliado?
Quando a pessoa nunca apresentou aquele tipo de alteração visual, especialmente se o quadro é atípico ou ocorre de forma súbita, uma avaliação ajuda a diferenciar enxaqueca de outras causas possíveis.
Reconhecer a aura significa reconhecer também quando algo mudou
Quem apresenta enxaqueca com aura visual pode aprender a identificar características que se repetem de maneira semelhante entre as crises. Essa repetição oferece informações importantes para a avaliação.
O cuidado maior aparece quando o comportamento deixa de ser aquele conhecido: a alteração visual começa abruptamente, dura um tempo muito diferente, afeta claramente apenas um olho ou vem acompanhada de outros déficits neurológicos.
Se alterações visuais recorrentes estão acontecendo antes ou durante suas crises e ainda não existe uma avaliação definida desse padrão, entre em contato com a Clínica do Cérebro DF para saber mais sobre consulta neurológica e agendamento.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação médica. Perda súbita da visão ou sintomas neurológicos abruptos, como fraqueza e alteração da fala, precisam de atendimento de urgência.
